Brasil e o novo paradigma do mercado nacional de videogames

Num passado não muito distante, o mercado nacional parecia destinado à estagnação: pirataria desenfreada, total falta de consciência por parte da maioria dos gamers, jogos originais a preços absurdos, e os verdadeiros gamers, únicos responsáveis pela evolução da indústria do entretenimento eletrônico desde o seu surgimento, eram rotulados de “playboys” ou até mesmo de idiotas, por usarem somente produtos legítimos. O mercado parecia abandonado e sem qualquer possibilidade de recuperação.

A imprensa brasileira “especializada”, tecia críticas ferrenhas ao Xbox 360, face ao problema das 3 luzes vermelhas, que assolou as primeiras versões do console, inclusive, fazendo chamadas de capa extremamente depreciativas do console da Microsoft, num verdadeiro show de total ausência de imparcialidade.

Eis então que a Microsoft americana anuncia, poucos meses depois, na E3 2006, o lançamento do Xbox 360 em inúmeros países, incluindo o Brasil. A imprensa nacional entra em polvorosa (enquanto alguns jornalistas engolem seco), uma vez que nosso mercado carregava a pior imagem possível, mas, mesmo assim, uma das “majors” estava realmente disposta a investir em nosso país, notícia que realmente merecia comemoração.

A ansiedade de gamers em geral, bem como dos membros da imprensa era enorme, até que, na noite do dia 09 de novembro de 2006, o lançamento do Xbox 360 no Brasil foi oficializado na Coletiva de Imprensa da Microsoft, em São Paulo. Tudo corria com maestria: lançamento em algumas semanas, jogos a preços mais realistas e acessíveis (ao menos para a época), até que o preço do console foi revelado…E um silêncio sepucral tomou conta dos presentes.

Evidentemente, isso era apenas o começo, com direito Gears of War como título de lançamento da versão nacional do console e o primeiro título totalmente traduzido para português (Viva Pinãta), demonstrando o respeito com que nosso mercado estava sendo cortejado.

Naquela fria noite de novembro, o mercado nacional ressuscitava.

 

Adiante um ano e, em 2007,  tivemos o primeiro título de peso totalmente localizado para nosso idioma (embora a tradução tenha sido deficiente), Halo 3, lançado a R$ 179,00, com direito a todas as versões (Standard, Limited e Legendary) disponíveis em nosso país, em preços quase tão atraentes quanto importar diretamente dos EUA.

Em 2008, Gears of War 2 também chega ao Brasil, com direito a todas as versões, porém, graças a problemas junto à Receita Federal, o lançamento, que seria mundial, no dia 7 de novembro, sofre atraso de uma semana, somente no Brasil.

Em 2010, fomos brindados com o lançamento de Halo: Reach, também disponível em todas as versões, sendo que as edições superiores à Standard (normal) sofreram atrasos (aparentemente, também por questões alfandegárias). Numa manobra que demonstra o extremo respeito da Microsoft Brasil com o mercado nacional, e em total obediência ao Código de Defesa do Consumidor, foram oferecidas versões Standard gratuitamente para quem havia realizado a pré-compra das edições Limitada ou Lendária.

Em 2011, a Microsoft anunciou uma decisão que mudaria para sempre o mercado nacional: o início da fabricação de todas as versões atuais do Xbox 360 (por preços a partir de R$ 799,00) e seus jogos no Brasil, barateando sensivelmente seus preços (lançamentos a partir de R$ 99,00), e tornando-os, por consequência, muito mais acessíveis, não apenas aos gamers, mas, aliado à revolução do Kinect, o console foi capaz de conquistar pessoas que jamais imaginaram ou quiseram comprar um console antes.

Essa mudança no “status quo” do mercado nacional foi tão repentina que muitas pessoas simplesmente ainda não foram capazes de compreender o seu significado, e nem perceberam o quanto a Microsoft mudou a história da indústria de videogames no país: hoje em dia é mais barato comprar consoles e jogos na rede oficial do que nas lojas do mercado cinza. O mercado sofreu uma inversão de valores, o que só veio a beneficiar o consumidor e o próprio mercado.

Recentemente, na Livraria Cultura da Avenida Paulista, enquanto estava na seção de games, testemunhei um diálogo bizarro entre dois amigos, em que um deles vibrava com os preços do console e dos lançamentos, dizendo que, assim que recebesse o 13º salário, iria comprar todos esses produtos na…Santa Efigênia(!).Realmente, trata-se de uma pessoa que simplesmente não absorveu a nova realidade do Brasil, pois atualmente, qualquer loja da Rua Santa Efigênia (com exceção das que comercializam originais nacionais e piratas ao mesmo tempo), é mais cara do que as versões oficiais. Apenas exemplificando,enquanto Just Dance 3 custa R$ 99,00 em toda a rede oficial, ele é encontrado nas lojas do centro de São Paulo por preços que variam de R$ 129,00 a R$ 149,00.

Muito embora nem tudo tenha corrido com perfeição nesses últimos anos, estamos vivendo um momento importantíssimo na história dos videogames no Brasil, no qual iniciativas como a da Microsoft merecem nosso total apoio, e deveriam servir de exemplo para a concorrência, que continua tratando o consumidor brasileiro com descaso e preços exorbitantes, não tendo sido capaz de acompanhar a qualidade (dos produtos em si) e os preços da linha de jogos do Xbox 360 no país, contrariando um os princípios mais básicos da economia, e praticamente entregando o mercado para a Microsoft, que agora colhe os frutos tanto de seu empenho, como da desídia de seus concorrentes.