Doctor Who, a mais antiga série de ficção científica de todos os tempos, que completará 50 anos de existência no próximo ano, terá seu primeiro jogo paraum console doméstico em março deste ano, em lançamento exclusivo para os consoles da Sony (PlayStation 3 e Vita).
Infelizmente, como em toda adaptação de filmes e séries de TV para games, fica evidente o receio dos fãs em relação à qualidade da adaptação uma série tão consagrada mundialmente, uma vez que é considerada, por muitos, como a melhor série da história. Se você acredita que Star Trek criou a fundação da ficção científica e das séries que vieram depois dela, prepare-se para um choque cultural, pois muito antes de Jornada nas Estrelas ir ao ar, Doctor Who, em 1963 já lidava com viagens no tempo e espaço, sintetizadores de comida, entre tantos outros assuntos e teorias nós, fãs de ficção tanto adoramos. Apenas para se tenha uma idéia da influência dessa série britânica, o episódio “Assignment Earth” de Star Trek, exibido nos EUA em 1968, pode ser considerado uma homenagem (ou plágio) de Doctor Who, pois o protagonista desse episódio possui todas as características (e até mesmo os equipamentos) do “Doutor”.
A série original, que durou de 1963 a 1989, retornou ao ar em 2005, trazendo Christopher Eccleston no papel principal, tornando-se um hit absoluto no Reino Unido (apesar da primeira metade dessa temporada ser fraquíssima). Apesar do sucesso estrondoso, Christopher Eccleston abandonou o papel, por motivos pessoais, sendo substituído pelo ator escocês David Tennant (o Hamlet da Royal Shakespeare Company, o que significa, em poucas palavras, que se trata de um ator de elite do Reino Unido). O que poderia ser considerado um risco (a mudança do protagonista em meio ao sucesso), tornou-se a melhor coisa que poderia acontecer à série, pois Tennant (fã da série desde criança), firmou-se como um dos melhores e mais cultuados Doutores, tendo permanecido no papel por quatro temporadas, tornando Doctor Who uma série ainda mais popular em todo o globo.
A popularidade, no entanto, não restinge-se somente ao público, pois a crítica especializada também tem reverenciado Doctor Who, tendo recebido nada menos que cinco prêmios Hugo (Hugo Awards), desde que a série voltou ao ar, pelos episódios: “The Empty Child”/“The Doctor Dances” (1ª Temporada), “The Girl in the Fireplace” (2ª Temporada), “Blink” (3ª Temporada), “The Waters of Mars” (um dos especiais da 4ª Temporada), e “The Big Bang”/ThePandorica Opens” (5ª Temporada). Importante salientar que de todos esses episódios, com exeção de “The Waters of Mars”, foram escritos por Steven Moffat (co-roteirista de “As Aventuras de Tintin”, de Steven Spielberg), considerado o melhor roteirista da série (e, não por acaso, o atual produtor executivo da série), que assim como David Tennant, era fã da série desde sua infância.
Muito embora David Tennant tenha marcado uma era, ninguémpoderia estar preparado para o espetáculo de atuação proporcionado pelo ator que o substituiu, Matt Smith, que firmou-se rapidamente, entre os dois melhores intérpretes do viajante do tempo mais famoso do universo, sendo considerado uma unanimidade entre público e crítica. Não por outro motivo, Neil Gaiman, autor de Sandman, entre tantas outras obras importantes das últimas décadas (e fã da série, especialmente do episódio Blink, da terceira temporada), pediu ao produtor executivo da série para escrever um roteiro de Doctor Who, culminando no lançamento de um dos episódios mais emocionantes de toda a série: The Doctor´s Wife”, que é uma verdadeira homenagem aos fãs de longa data do seriado.
Mas, afinal, o que essa série tem de especial, com seus figurinos e cenários tão estranhos? Trata-se de uma série britânica, portanto, é normal achar o design esquisito no começo, algo bem similar ao que ocorre ao jogarmos Fable pela primeira vez, pois é uma questão de adaptação. Além disso, devemos sempre considerar que trata-se de uma produção da BBC de Londres, ou seja, é uma série totalmente bancada pelos impostos pagos pelos ingleses, que possui um orçamento infinitamente inferior a qualquer série americana (afinal, o governo não pode esbanjar, pois do contrário seria duramente criticado pela oposição). No entanto, o que os roteiristas de Doctor Who não tem em dinheiro, compensam com criatividade, o que se constata em seus roteiros incríveis, numa muito bem vinda antítese aos clichês das séries americanas.
Doctor Who narra as aventura do Doutor, um Time Lord de 907 anos, último remanescente de sua raça, após o fim da Time War, que consumiu seu planeta natal, Gallifrey, bem como os inimigos que levaram a esse trágico desfecho, os temíveis Daleks. O Doutor, muito embora no começo da série menospreze os humanos, cria um apreço pela humanidade com o passar dos anos, vindo a tornar-se o grande defensor da Terra contra quaisquer ameaças, especialmente as alienígenas. Fluente em mais línguas que C3PO, o Doutor consegue se comunicar com os seres de qualquer planeta do nosso universo (bem como universos paralelos e até mesmo fora do universo conhecido) e, se você for um bom viajante, ele ainda fará a gentileza de ativar o Roaming Universal do seu celular, permintindo que você ligue para qualquer planeta (ou época), sem pagar nada.
Mas afinal, como ele faz isso? Quando fugiu pela primeira vez de Gallifrey, o Doutor “pegou emprestada” uma TARDIS (Time and Relative Dimensions in Space), em outras palavras, uma máquina do tempo, capaz de viajar também no espaço, através do Time Vortex, superando, com isso, a velocidade de qualquer nave espacial da ficção, indo do ano zero ao fim do universo (sim, esse é o destino de um dos episódios) quase que instantaneamente. Uma das principais características da TARDIS é ser maior por dentro do que por fora, por tratar-se de uma tecnologia dimensionalmente transcedental, o que na verdade, foi apenas uma desculpa pela falta de dinheiro no orçamento original do programa em 1963, que não permitiu que construissem um modelo da parte externa da nave, ficando apenas com a cabine telefônica e o interior da TARDIS.
Quanto a toda aquela parafernália dentro dela? Na verdade, toda a tecnologia dos Time Lords possui os chamados “filtros de percepção”, que fazem com que sua altíssima tecnologia tenha a aparência de coisas antiquadas, passando desapercebidas para raças inferiores.
Com tamanha tecnologia, a TARDIS não poderia ter uma aparência melhor? Na verdade, uma TARDIS plenamente operacional adquire as características de qualquer objeto do local em que ela se materializará, porém, o Circuito Camaleão da nave entrou em curto, ficando travada na forma de uma Cabine Telefônica da Polícia, de 1963. Na realidade, a TARDIS é uma nave gigantesca, cuja forma real nunca foi totalmente mostrada na série (apenas destroços de algumas, no episódio “The Doctor´s Wife”, de Neil Gaiman), no qual finalmente descobrimos a razão pela qual nem sempre a nave vai parar exatamente onde o Doutor deseja.
Além disso, a TARDIS possui um tradutor universal, que permite que os viajantes leiam, escutem e falem qualquer idioma, por meio de nanomáquinas que se instalam em seus organismos, em mais uma desculpa que funciona muito bem em toda a série.
Afinal, qual é a graça disso tudo? A graça é assistir a um programa familiar, em que o protagonista é seu herói favorito e modelo de caráter, mesmo que você tenha 7 ou 87 anos. Uma série em que uma criança ou um idoso possam ter a mesma importância do protagonista na trama e, especialmente, uma série em que disputas, crises ou até mesmo guerras possam ser resolvidas com inteligência ou palavras, o que dificilmente veremos numa série americana.
Achou interessante? Mas, com mais de 700 episódios, por onde começar? A boa notícia é que você pode começar por qualquer episódio, porém, recomendamos que comece por “Blink” (3ª Temporada), ou “The Girl in the Fireplace” (2ª Temporada), ambos disponíveis no Netflix (com legendas em português), e que ilustram bem o estilo dessa série tão cultuada. Caso deseje seguir a série numa sequência, recomendamos que comece pela quinta temporada e, a partir daí assista a todos na ordem, o que tornará a sua diversão ainda maior.
Alguma chance do game ser à altura da série? Assista aos videos abaixo e tire suas próprias conclusões.
Trailer da 5ª Temporada:
Trailer de Doctor Who: The Eternity Clock:

