Quando a indústria joga contra si mesma – Parte 1

Parece inevitável: em praticamente todo crime de repercussão nacional, a imprensa brasileira tenta, puerilmente, imputar a influência dos videogames ao ato criminoso. Evidentemente, o cinema,  TV e a Internet “não tem absolutamente nenhuma influência” sobre as mentes doentias que cometem barbáries como a de Realengo. Será?

O mais decepcionante, nisso tudo, é que a maior parte da população, por não possuir familiaridade com o tema, acaba considerando todo e qualquer comentário nesse sentido como verdade absoluta, uma vez que são exibidos em programas jornalísticos “ditos” sérios.

Como se isso já não fosse um problema grande o suficiente, o que acontece quando a própria indústria atua contra si mesma? Explicarei melhor: por que motivo uma grande empresa do mercado de varejo brasileiro (e a maior do mundo), veicula na TV, em horário nobre, um comercial com as promoções para o Dia das Criança, em que um dos produtos de maior destaque é Gears of War 3, um jogo classificado para maiores de 18 anos?

Trata-se de atitude, no mínimo, irresponsável por parte do departamento de marketing do Walmart Brasil. Primeiro por oferecer um jogo cuja classificação etária deixa claro não se tratar de produto voltado ao público infantil e, sem segundo lugar, por estar criando oportunidades para que se configure mais uma situação negativa relacionada a videogames.

A falta de bom senso, no entanto, não se restringe ao comercial de TV, pois como pode ser verificado na captura de tela ao lado, extraída do site walmart.com.br, Gears of War 3 também aparece com grande destaque na página desenvolvida especialmente para o Dia das Crianças, onde se lê: “Grandes presentes para a criançada com os menores preços da Internet”. Será que ninguém no Walmart foi capaz de enxergar tamanho disparate? Estou certo que não.

Evidentemente, não acredito que qualquer criança que venha a jogar Gears 3 se influencie o suficiente para repetir os feitos do jogo na vida real. Isso, além de rídiculo, seria subestimar a inteligência das crianças, porém, imagine uma mãe que, face à propaganda, adquire o game para seu filho de sete anos. A mãe, então, passa a ouvir o som de uma serra elétrica com certa frequência e, quando vai ver do que se trata, constata que é seu filho, serrando inimigos no videogame, o que, certamente, a deixará chocada (e com razão).

A responsabilidade, no entanto, está longe de ser apenas do Walmart, pois a mãe, nessa situação hipotética, também é responsável, pois adquiriu um jogo recomenado para maiores de 18 (vide o quadrado horrendo que “enfeita” a capa dos jogos nacionais) e o colocou nas mãos de uma criança, apesar de ter sido induzida a erro pela propaganda. Apenas para exemplificar, proibi meu filho de 11 anos de jogar o primeiro BioShock e os jogos da série Dead Space. São jogo excepcionais, com narrativas excelentes, porém, para realmente compreendê-los e para que proporcionem uma experiência completa, necessitam de um amadurecimento que ele ainda não tem e ninguém melhor do que seu pai para saber disso.

Independente desse mal-estar criado pelo Walmart, é importante ter um jogo AAA sendo marketeado em horário nobre? Sem dúvida alguma, porém, que seja marketeado de maneira apropriada e para o público correto, pois é inconcebível a continuidade da propagação da idéia de que videogames são produtos destinados apenas para crianças. Isso é passado, há muito enterrado e que lá deve permanecer, para nunca mais voltar. Videogames são a mais nova forma de expressão, a mais nova arte, e o meio de entretenimento escolhido pela maioria da população mundial, devendo ser assim considerado.

Vamos torcer para que fatos dessa natureza não venham a se repetir, pois o maior prejudicado é o próprio mercado nacional, que se agora voltou a engatinhar, não merece sofrer mais um revés, especialmente pela falta de bom senso de um departamento de marketing que não entende, sequer, os seus produtos.